Viajar na Calçada de Sant’ana

O inicio da calçada de Sant’ana é íngreme e sobe quase a pique em toda a sua extensão. A localização na zona velha da cidade capital, ao lado do hospital de São José, outorga-lhe vetustas e medievas histórias, mesmo as que gravaram na pedra memorias dolorosas de um sismo que de tão nefasto marcou o renascimento não só das vidas na altura desfeitas como as das gerações futuras. É disso exemplo a igreja da Pena, antes do terramoto sem capela-mor, o Convento da Encarnação parcialmente destruído, recuperado para mais tarde manter funções de recolhimento de pessoas, após a expulsão das ordens religiosas. Também foi nesta rua que morreu e foi sepultado o poeta ícone de um pais, Luís Vaz de Camões, posteriormente transladado para o monumento que imortaliza o feito de um povo na altura reconhecido como um dos grandes do mundo de então.
Mas hoje estou longe de  ambicionar dissertações carregadas de valores culturais, afasto-me portanto destes temas e centro-me no que os meus olhos podem abarcar, uma rua algo estreita com comercio tradicional ainda não vergado as grandes fusões económicas, pessoas que conversam sentadas em mesas enfileiradas no exíguo espaço que sobra de balcões onde se serve o café, normal numa hora de almoço.
Assaltada pela curiosidade subo dois degraus e entro numa barbearia de esquina. A sala, exigua,  tem uma janela, mas luminosa  um espelho grande uma cadeira para o corte, outra para lavar e um sofá para a espera. Nada aqui é supérfluo.
Apresento-me e peço autorização para contar a sua história
O Sr Ram é indiano, de Panjabe, região que dista quase 3.000 Km de Goa, segundo os seus cálculos. Veio para Portugal há 10 anos, por ser um pais calmo, sem guerras, com um povo caloroso e sem grandes entraves ao acolhimento de seres de outras paragens. Na Índia falava além da língua pátria o inglês, aqui  expressa-se em português que aprendeu na escola da rua. Embora filho de pai agricultor decidiu ser barbeiro por acreditar ser uma vida menos penosa. Escolha acertada pois em18 anos que exerce a profissão, iniciada aos 17,  nunca se arrependeu.
Nem sempre esteve no espaço que ocupa agora, um lugar com 70 ou 80 anos. Após consenso mutuo com o antigo dono, falecido há pouco mais e um ano, mudou-se do Barreiro e assentou arraiais na calçada. Já não é comum, trabalhar no piso térreo e morar no superior, mas ainda acontece e o Sr.Ram é disso um exemplo. Vai a Índia com regularidade a provar que a palavra saudade pode ser nacional mas o sentimento esse é transversal.
Reparo numa imagem que se destaca dos pincéis, laminas, barbeadores, latas,  -Nossa Senhora de Fátima. É crente confesso e desloca-se várias vezes ao seu santuário.
Pergunto-lhe os preços
2,5 € fazer a barba com lâmina, 5,00 € um corte de cabelo e 1 € as acertar as sobrancelhas
Clientela, essa não falta e abrange todos os escalões etários, mas esclarece, há uns anos havia muitos indianos por aqui agora devido a crise são só 3 ou 4 familias
Oferece-se, com um gentileza desarmante e sem qualquer malícia escondida, para me fazer as sobrancelhas, desconfio porquê mas gosto delas desalinhadas.
Uns passos mais acima e entro na estabelecimento do Sr.Manuel, um lugar de fruta em jeito de taberna, meio na obscuridade, e uma história banal segundo o seu juízo. Natural de Galveias no Alentejo veio para Lisboa por volta de 69 para trabalhar na papelaria Fernandes, a vida por lá, na planicie, era exigente e com poucas perspectivas. Quando a situação da empresa ficou difícil voltou as suas atenções para o Marl onde aprendeu o negocio da fruta, com esse conhecimento e umas parcas economias estabeleceu-se aqui.
-Há uns tempos isto dava, o Inatel mesmo ao lado era bom para o negocio, agora não. o movimento é escasso e as pessoas querem outro tipo de lojas, acresce a isto os impostos. Não é nada fácil -diz encolhendo os ombros numa expressão de resignação à devastadora mudança dos tempos, dos hábitos.
Vai ao Alentejo, não tanto quanto gostava pois a família de infância ficou por lá, o filho formou-se em engenharia e voou para a França.
Se encontrasse comprador a altura vendia o negocio e voltava para a terra, mas ao olhar para a sua expressão não fico disso convicta.
A meio da calçada e já num outro dia mais ensolarado entro na mercearia Arganilense. O Sr. Virgilio Henriques gere o estabelecimento, num regime duro desprovido de dias de descanso. As imposições camarárias e da ASAE obrigaram a reestruturações dispendiosas, algo a que os emigrantes estão dispensados ou pelo menos aligeirados. O movimento na loja só tem significado nesta altura de verão devido aos turistas, no resto do ano é só velhotes, os filhos esses querem outras paragens. Está sempre atento as promoções e quando vantajosas deixa a venda ao encargo da mulher e parte para as compras. A conversa desenrola-se quente como o sol que se espraia pela calçada, Luis de Camões está mesmo ao lado, morreu ali, mal podia imaginar que estava a falar com o actual proprietário do prédio.
A sua terra natal é Cernache de Bonjardim , então porquê Arganilense?- pergunto
-Não sei, vem dos antigos donos.
Os sinos tocam a repique, pouco depois o ar enche-se de cânticos de um cantochão há anos repetido, os ouvintes vão envelhecendo, os novos já não assistem, a igreja tem horas cada vez mais escassas de abertura, só ao cair da tarde nos dias de Agosto, -quando chegar o Outono logo se verá, depende da assistência, diz a sacristã. Pergunto-me se irá resistir a mudança dos tempos.
Estas são as histórias contemporâneas que vivem de braço dado com as outras, mas será que temos disso consciência?
Estas são as histórias que juntas com outras fazem o canto de uma cidade.
Calçada de Santana calçada de santana
E na minha cabeça ecoa a saudação de Sr.Ram, repetida sempre que passo na Calçada- Boa Tarde Sra. Está bem ?
Maria M