Uma certa litania do quotidiano

O poder da imagem extrapola o poder da palavra, não as imagens banais mas as imagens que carregam conotações Orwellianas
Cada um fará a sua leitura pessoal da imagem, pode esta ser com linhas de luz ou de grafite.
Embora com um mundo de distância entre as duas, ambas visam o mesmo propósito, a reflexão metafórica e quiçá mais contemplativa do que nos abraça a todo o momento.
Fotografar é darmos a nossa visão, é saber seleccionar o que nos emociona, é darmo-nos ao mundo, por isso é tão intimista. Junte-se um grupo de pessoas com o mesmo tema e no mesmo local e teremos um caleidoscópio de imagens, tantas quantos os intervenientes nas mesmas, porque nenhum de nós é igual.
Num desenho não há tanta premência no equilibrio do momento, o tempo deixa de ser uma coordenada obrigatória, aqui o prazer é fundamental.
Em qual das duas o processo de aprendizagem é mais longo, é uma questão para a qual não tenho resposta.
Desenhar é olhar o que não se vê, mas acima de tudo transformar em linha o que vemos e não o que interpretamos, é um jogo de desconstrução mental, difícil para nós que somos acima de tudo animais de hábitos e percepções pré-concebidas.
Ao tentar começar por informar os espaços negativos, o sentimento de angústia avassala-me e a cada dificuldade encontrada o meu ser reage com obrigação de responder porque há muito o meu íntimo percebeu que focar no problema não leva a nada, só angustia, apenas interessa focar na solução.
E desistir dizendo a nós mesmos não sermos capazes é o maior dos sacrilégios.
“Desenhar é um fascinio. E é uma disciplina, porque qualquer manifestação, qualquer forma de expressão para atingir qualidade exige um exercício disciplinado. Um grande violinista, um grande concertista, um pianista tem de tocar escalas todos os dias, tem de fazer uma série de exercícios. No caso das artes visuais, é necessário que esteja perfeitamente apto para representar não só a realidade exterior, mas também a realidade interior. É a representação de um sonho, é uma coisa deslumbrante. O Almada Negreiros define desenho como o nosso entendimento para fixar o instante…….”
Lagoa Henriques.
Maria M