Ribeira das naus

Acho que nas veias de todo o lusitano corre água salgada, ou não fossem eles os filhos do mar.

O Tejo beija as margens, despindo-se sem nunca se desnudar tal o rendilhado da sua espuma. Sento-me no passadiço e vejo ao longe os mastros. Que altivez, como seria inebriante no tempo das naus, no tempo das caravelas. Fecho os olhos ouço o barulho da azáfama, os gritos dos pregões, os marinheiros com o seu calão, sinto o cheiro da bebida e do suor impregnado de sonhos e de esperança numa existência melhor.

Lisboa fervilha de vida. Ao longe ecoa na minha cabeça o horror dos autos de fé, como pode o ser humano chegar a condições abaixo de animal, até onde chega o querer impor vontades o querer que tudo seja igual num mundo que nasceu para a diferença.

Será que vivi nesse tempo? Será que fui embarcadiça para ainda soar tão forte em mim o gosto pelo mar e a paixão pelos barcos?

 

Ribeira das naus

 

 

E foi nessa geografia da distância que se desenhou a palavra saudade.

Maria M