Os Transparentes

Olha já reparaste como Ondjaki está a autografar os seus livros.
Estava na fila para a dedicatória de Mia Couto e após esta observação de uma desconhecida, verifiquei a forma exótica e apelativa com que o escritor angolano assinava a sua obra, em pontilhismo.
Se são os livros que chamam os seus leitores através de um qualquer misterioso e oculto enredo não sei, mas sei que nesse momento o livro me agarrou num emaranhado de teias invisíveis, contudo fortes o suficiente para dois dias depois adquirir ” Os transparentes”.
E com tão loquaz inevitabilidade de apelo deixei toda a leitura que tinha em mãos para lhe dedicar a minha atenção
Na primeira página uma folha preta,
 “Acabou o tempo de lembrar
 choro o dia seguinte
as coisas que devia chorar hoje”….. Do bilhete amarrotado de Odonato
Segue-se a história que inicia com cheiro a fumo e na minha memória ouvia a voz… “mataram Santiago Nasar..”. É isso, estava ler o quase fim do romance que a seguir se desenrolava com este cheiro forte na mente
Tudo se passa num  prédio de gente pobre, tão pobre que alguns nem nome tem, aparece assim o vendedordeconchas, Mariacomforça, Joãodevagar…..e Odonato que aos poucos foi prescindindo de comer para ter com que alimentar os filhos e desta forma a vida aliviou-o do cargo da materialidade.
Mas este prédio é mais do que uma simples estrutura vetusta e decadente, encarna em si o estereotipo da sociedade Luandense, mas será só essa a sociedade em questão?.
Enquanto lia mergulhava numa realidade que infelizmente poucos são os que não a conhecem .
Por detrás de discursos da gente com poder que apelam a austeridade habita uma desmesurada obsessão pelo poder, pela ostentação, numa dialéctica que contrasta com a ordem entretanto transformada em caos. Os sinais vão aparecendo ao longo do livro, o desfecho é inevitável, como inevitável parece ser a cegueira de todos os intervenientes  face ao seu destino.
Questiono-me, é assim só no livro?
Espaçadas aqui e ali as paginas em preto, só tenho uma leitura, o que restou, estas páginas são relatos postumos da tragédia que a vida foi urdindo, numa cadência de declínio constante,  com epilogo em que pouco importa clamar por inocência.
“.. -acordem, homens.. qual distribuição?! então e o estado agora precisa que alguém do setor privado distribua água? e nós ficamos calados, não é assim? o estado admite <eu não posso distribuir água com qualidade, mas este senhor, que até já tem nome tão Cristalino, ele sim, pode! a partir de agora a água será bem distribuida, bem purificada! viva a privatização da água> mas onde é que já se viu?
-também não é preciso ficar assim, homem….
-durmam….. -dizia o Esquerdista com ar irónico e triste, e desapontado e sério – durmam, enquanto vos enfiam o dedo no cu sem aparar as unhas… durmam enquanto vos anestesiam com doses de suposta modernidade!, ….”
Um bom livro é aquele que nos marca para sempre, assim acontece com os transparentes.
Transparentes

 

Quem, por causa do medo se encolhe e rasteja vive a morte na própria vida.

Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte
Morrerá quando a morte vier, mas só quando ela vier.
                                                                                                Rubem Alves
Maria M