O mar, a serra, a cidade – Exposição de aguarelas de Roque Gameiro

Esteve patente de 20 de Março a 25 de Abril, na Galeria de Arte dos Paços do Concelho de Lisboa uma exposição imperdível comemorativa dos 150 anos do nascimento de Roque Gameiro; o horário contudo não era o mais apelativo, de portas abertas das 10h as 18h e fechada aos fins de semana, excepto o da Pascoa, obrigou-me a um olhar mais atento no sábado aleluia após uma visita relâmpago num dos dias úteis que lhe precederam.

A abordagem dada aos temas bem como o domínio completo do  artista no que respeita ao desenho e a transparência da cor levou-me de imediato a querer saber mais sobre sua biografia.

 Nascido em Minde, veio aos 10 anos para Lisboa onde trabalhou na oficina da Litografia Castro & Irmão, frequentando anos mais tarde aulas nocturnas de desenho na Escola de Belas Artes.

Recebeu uma bolsa estatal e partiu, aos vinte anos para Leipzig, na Alemanha, com o intuito de aprender mais sobre a arte litográfica, nunca deixando, no entanto, a sua paixão pela aguarela . Expôs ao lado dos grandes da época Columbano Bordallo Pinheiro, Malhoa que o apreciava, Manuel de Macedo, Raphael Bordallo Pinheiro. Ilustrou vários livros de história de Portugal e pintou com um virtuosismo plástico irrepreensível Lisboa, seus hábitos e costumes, a Lisboa Velha. Imbuia-se do lugar e das suas gentes antes de passar ao traço meticuloso e ao pigmento que espalhava com mestria perfeita no meio aquoso, uma lição para quem pretende transmitir ao pincel os segredos avassaladores desta grande arte.

Mas não foi só Lisboa, também o mar o mundo rural, os costumes nacionais, os retratos e a ilustração constituiram os núcleos temáticos escolhidos para esta mostra exemplar que se estendeu pelas duas salas da galeria num ambiente convidativo a reclusão interior, essencial para a observação atenta dos pormenores que respiram vida e estimulam a imaginação.

 Ao ler o texto do catálogo da exposição não posso deixar de sublinhar frases que me tocam

 “.. A vida das pessoas (e das casas, porque não?) tem sempre subjacente uma reunião imponderável de factores, imprevistos, acasos, contigências várias que encaminharam os acontecimentos numa determinada direcção e não noutra, e moldaram aquele novo ser que abraça a vida pela primeira vez. Um nascimento é sem duvida um acontecimento prodigioso e mágico, por ser consequência de tantos movimentos contraditórios e tantas contingências aleatórias, vontades e negações, avanços e arrecuas da natureza. Uma vida tem milhões de tonalidades originados por milhões de casualidades. Por si só, nascer é já um milagre, pelo que projecta no futuro, com todas as hipóteses em aberto e todas as portas escancaradas. E crescer é ir fazendo as nossas escolhas, abrindo umas portas, fechando outras….”

……

“A divulgação das Artes é uma das traves-mestras sobre a qual assenta um dos principais interesses e a grande aposta no futuro que o Centro de Artes e Oficios Roque Gameiro preconiza, porque entendemos que através da Arte é possível formar jovens humanamente melhor preparados, mais cultos, mais íntegros, mais sensíveis aos outros e à natureza, mais felizes.”

 Excertos do texto do catalogo da exposição comemorativa dos 150 anos de nascimento do artista, que Maria da Graça Moreira Rodrigues (vice presidente do Conselho Director do Caorg) elaborou a propósito da placa existente na entrada do Centro de Artes e Oficios Roque Gameiro, em Minde: Honra teus avós.

 Roque Gameiro

 

“Natureza não é aquilo que se vê mas aquilo que se sente”- Roque Gameiro

 Pergunto, na qualidade de fotografa

E uma grande imagem não é isso mesmo também?

Maria M