Exposição Paisagem nordica do museu do Prado

Foi com grande expectativa que visitei a exposição de pintura com quadros de Rubens, Brueghel e Lorrian, entre outros, patente no mais prestigiado museu nacional, o museu de arte antiga. As obras todas pertencentes ao espolio do equivalente museu do pais vizinho, o museu do Prado, apresentam como tema comum paisagens rurais e algumas marítimas.

De acesso pela porta lateral, aparece logo a entrada uma tela a representar montanhas alpinas. Foram os países nórdicos os primeiros a dar destaque a paisagem campestre, e embora na passagem do sec XV para o XVI já se pintassem paisagens puras com Durer, foi na segunda metade do sec XVI que estas composições ganharam estatuto de género autónomo com Pieter Brueghel. As montanhas são importantes pelo exotismo que representam nos planos campos holandeses. Primeiro pintado por planos evoluiu para pinceladas que se interligam de forma a tornar a obra mais credível porquanto mais próxima da realidade tangível. Em todas a perspectiva aérea é já uma quase constante, algo que Leonardo Da Vinci introduziu na pintura. Hoje um dado adquirido mas foi o seu génio que transportou para a tela a noção do etéreo, mais difuso ao longe. A burguesia, no entanto, impôs o gosto pela paisagem local, pela extensa planície onde o único relevo são as densas e mutáveis nuvens que se perdem no céu infinito. Surgem assim as representações pictóricas do bosque não como suporte de composição mas como o seu elemento principal, onde circulam pessoas e animais no seu dia a dia. Por vezes com paletas restritas a cores terreas, onde aparece uma cena dentro da cena, servindo o bosque de moldura.  Mas também existem representações do “bosque biblico”, o bosque que serve de abrigo seguro a mitologia e alegorias, bem como do “bosque encantado”  que é um convite a beleza sensual do nu.

Rubens conhecido pela sua pintura de história, cultivou também o genero paisagem, e pelo numero de quadros que possuia de pintores flamengos e holandeses sobre este tema deduz-se que lhe agradava,Não é pois de estranhar que tivesse pintado em conjunto com Jan Brueghel, o velho de quem era amigo. Esta prática de colaboração de mestres na mesma tela não é original, aconteceu por exemplo com Joachim Patinir e Quentin Metsys nas Tentações de Santo Antão.

Estão expostas várias obras com ambiente campestres, numa clara mensagem de um sonho, ser a politica de Flandres um bastião da Contra-Reforma  com vista a reunificação de todas as Províncias Baixas como uma nação soberana, independente e tolerante, A vida campestre surge assim como um meio de propaganda que traduz o quotidiano popular. No tema das bodas, Pieter Brueghel, usava-o com função moralizante para advertir contra os perigos da lascívia e da gula, por isso o povo é representado  ébrio e comportando-se de forma licenciosa, no entanto o seu filho, na qualidade de pintor da corte usa a boda como metáfora da união e da concórdia entre soberanos e súbditos. Mais tarde Teniers introduz camponeses desempenhando tarefas que lhe são próprias mas não como seres genéricos, são isso sim individuos personalizados que desfrutam a sua vivência.

Quatro são as estações do ano e as representações de inverno traduzem a boa disposição que os habitantes dos Países Baixos tem para se adaptar as intempéries rigorosas com humor e engenho. Do ponto de vista artístico faculta ao pintor ocasião para estudar e reproduzir os especiais jogos de luz e reflexos sobre o gelo, bem como as delicadas tonalidades de rosa e azul.

Assim como na paisagem de inverno, as ilustrações para os livros de horas parecem ter sido o ponto de partida para a paisagem da água onde este elemento e o céu ocupam a maior parte da superfície utilizada, com navios e barcos como objectos narrativos naquela que é uma das mais características paisagens dos Paises Baixos. A importância deste tema deve-se ao facto da Holanda procurar na pintura um veiculo para se autoafirmar e de se dar a conhecer como um território independente e economicamente poderoso.

Para o seu desenvolvimento muito contribuiu o comercio além mar, cujo exotismo tem também expressão narrativa e pictórica nesta exposição,

Surgem também telas de palacios e jardins com valor artistico e documental já que serviam para enviar as outras cortes europeias como cartão de visita dos arquiduques.

São 57 obras que transmitem a realidade expressa de uma forma mundana palpável, longe,na maioria, dos arquétipos clássicos dos deuses. Sente-se o pulsar das gentes, por vezes dá vontade de por artes mágicas participar na cena também. Tal acontece-me sempre que vejo a pintura de Brueghel

 

Brueghel

Recomendo uma visita cuidada a exposição, As imagens recolhidas pretendem apenas divulgar a quem não pode por questões geográficas ou outras estar presente neste evento,

Um dia serão elas um registo para os privilegiados que as puderam observar na primeira pessoa

Maria M