Exposição o Traço e a Cor

Qualidade e beleza são alguns dos adjectivos que caracterizam esta exposição patente até 21 de Setembro de 2014 no edifício do museu Calouste Gulbenkian, com entrada pelo átrio da loja; atributos a que esta esta fundação já há muito nos habituou.

Na antecâmera pode ler-se, anexo a uma fotografia de uma das salas da casa parisiense do Sr.Gulbenkian, que este mecenas da arte não dedicava muita atenção aos esboços mas antes as obras já acabadas, no entanto estudos houve aos quais não pode ficar indiferente;

Esta mostra é um exemplo de traços, riscos e cor concebidos como alicerce de trabalhos posteriores mas em que cada um revela uma espantosa profundidade no domínio das virtudes da linha e da mancha.

Ao percorrer os corredores, algo na penumbra, os olhos escrutinam, deduzem e apreciam como com tão poucos meios se pode conceber equilíbrio tão perfeito.

Destacar um elemento ou outro sobre os restantes soa a sacrilégio mas não resisto a enumerar os que mais me prenderam a atenção, alguns mesmo provocando revoluções no pensamento.

Na figura feminina com crianças de um discípulo de Leonardo Da vinci , sanguinia sobre papel,  sec XVI, maravilha-me a monocromia e a perspectiva aérea, concepção com que o próprio Leonardo revolucionou a arte de então.

Pato bravo morto, de Albercht Durer sec XV, com uma sombra na parede exemplar

Estudo de armadura , de Anton Van Dyck, tinta da china e pedra negra com aguadas cinzentas e a sanguínea sobre o papel, sec XVII. Difícil passar despercebido, não só pelos focos de luz a destaca-lo como pela eximia simbiose entre um torax perfeitamente definido e os braços, pernas, pluma de elmo e lenço de armadura com traços pouco mais do que sugeridos.

Vista de um bosque com paisagem a vau, de Jacob van Ruisdael, pedra-negra e tinta da china, com aguadas cinzentas sobre papel, sev XVII. Um maravilhoso trabalho de mancha, com detalhes não exaustivos mas que definem a emoção da cena que se quer retratar.

Três estudos de cabeça de uma jovem, Jean Antoine Watteau, pedra-negra, sanguínea e giz com esfuminho sobre papel, sec XVIII. Qualquer descrição peca por defeito, é tão só a obra que abre o catálogo deste maravilhoso espólio, quase monocromática, com as linhas essenciais que deliniam um rosto e a sua emoção.

Cena campestre, Marie-Madeleine Igonet, pedra-negra sobre papel, sec  XVIII. As obras valem também pelas viagens que provocam dentro de nós, esta ilustração transportou-me as gravuras da minha infância, um tesouro guardado na  memória. É um tema rural que eleva quase a estatuto dos deuses as vidas modestas.

Faunese au repôs,Jules Adolphe Aimé Louis Breton, carvão e giz branco sobre papel acastanhado, sec XIX. Pareceu-me quase uma figura saída do atelier de Roque Gameiro. Nota-se hesitação e reajuste de traço no braço direito e na mão apoiada no cajado, fenomenal.

Figura feminina nua reclinada, Francois Boucher, sec XVIII. Pedra-negra, giz branco esfuminho e apontamentos a sanguínea sobre papel. Chamar estudo é abusivo para quem pega na grafite pela primeira vez, esta tela bem pode ser considerada concluida.

Figura feminina, estudo para o desenho do nascimento de Luis XV, Charles Nicolas Cochin, sec XVIII, pedra negra sobre papel. O pormenor do panejamento, a noção volume com claro escuro, são quase que hipnoticos.

Le maître de Danse e o interior de um parque romando de Fragonard, pena e pincel com tinta e aguadas castanhas e traçado a pedra negra sobre papel, sec XVIII. As cenas galantes e a subtiliza da cor, da mancha, da quase linha destacando apenas pormenores deixando o restante pontuado aqui e ali, algo que o subconsciente interpretará.

Plymouthcom arco Iris e ruinas da abadia de Tintern, aguarelas de Turner, sec XVIII. Turner famoso pelos quadros a oleo, e acima de tudo pelas paisagens maritimas, é autor de milhares de aguarelas, Preocupava-se com a transparência da luz e das tonalidades algo que a aguarela permite na perfeição.

Paisagens marítimas lado a lado com tratamento de linha e de cor distintas, leva a interpretações diferentes, dificil saber qual a que se gosta mais. É disso exemplo a entrada do velho porto de marselha, Felix Ziem, pena tinta e aguadas castanhas sobre papel e Shipbreaking Talmouth, Muirhead Bone, grafite sobre papel, sec XIX

Das Fábulas de La Fontaine em aguarelas, destaco

-A cigarra e a formiga (livro 1 fabula 1), Henri Gervex, duas figuras femininas evocativas de uma epoca Victoriana, 2 heroinas de classes socias antagónicas, o vestuário tratado de forma magistral, uma dama e seu mordomo com vestes sobrias e escuras e a cigarra, pedinte, de cores garridas, xaile vermelho, saia azul, violão castanho claro. É ela que chama a atenção talvez por ser ela a que dá cor a vida.

-A velha e as duas criadas (livro V, fabula 6); Maurice Leloir, dominio de cor e luz excelente

A Paisagem, Foujita, pena e tinta da china sobre papel, a transcendência da simplicidade.

E o que dizer das encadernações e ilustrações que elevam os textos a niveis  insuperáveis de qualidade artistica.

“La Mare au Diable, George Sand, aguarela de Edmond Adolphe

Le Cathedrale, Joris-Karl Huysmans, aguas fortes de Charles Jouas.

Une Rue de Le Cathedrale, Joris-Karl Huysmans, aguas fortes de Charles Jouas.”

Leituras para encantar

Exposição traço e Cor Exposição traço e Cor Exposição traço e Cor Exposição traço e Cor

 

Ao sair percebo o quanto não ficamos indiferentes aos trabalhos que revelam concepções mais tarde materializadas em telas consagradas,

E assim é, pois que outra justificação haveria para a magistral peça “quadros de uma exposição” de Mussorgsky senão a elevação da própria alma.

Maria M