Exposição Album de Família – Nelson D’Aires

Grande era minha expectativa neste conjunto de fotografias seleccionadas por Nelson D’Aires e ilustrativas do trabalho fantástico que desenvolveu transformando as imagens em argamassas da memoria, numa luta titânica contra o olvido a que os seres envolvidos estariam condenados não fora a deslumbrante atenção que lhes dedicou.
Mas a realidade tem destas coisas, consegue sempre superar a imaginação e a exposição revelou-se a todos os títulos notável.
Ao entrar, nas primeiras salas deparamo-nos com o prémio de fotojornalismo 2013, onde se desvendam vidas sem glória repletas de solidão e num abandono tal que lhes dá a vulnerabilidade para beber a esperança em qualquer fonte, algumas doem pelo desespero numa resignação muda perante o destino adverso.
É um lembrar, um mostrar que a hipocrisia não será eterna e que a cobiça é fruto da ignorância do coração.
É um grito, é uma lágrima é o tomarmos consciência do quanto devemos colocar uma mão amistosa no ombro do nosso irmão, ele sofre e nós também, e quem poderá dizer que não é ele também.
Por isso vivemos a era do medo e o medo é castrador, rasga-nos como navalha no gelo.
Na ultima sala, a maior, o destaque é o album de familia, de Nelson D’Aires. Como mote o trabalho de António Gonçalves Pedro,  fotografo que chegou a Mora com 16 anos de idade e onde viveu a maior parte da sua vida. Fotografou as pessoas de Mora e arredores numa época em que esta actividade não tinha a divulgação dos dias de hoje.
Tendo como base estas imagens Nelson procurou os retratados para desvendar percursos e revelar identidades que o tempo trabalhou.
Cada foto é um mundo e em cada imagem vislumbrei a humanidade e o assombroso talento do ser que esteve atrás da lente. Tentei perceber como teria sido feita, qual iluminação usada, como tão bem nos ensinou.
Os seres que nos marcam são aqueles que nos fazem reflectir, mudar rumos, reajustar vontades.
Com o Nelson aprendi o valor do jornalismo responsável, digno, na qual a critica só existe se constructiva, porque a guerra só ensina a matar e o odio a odiar. Um jornalismo para reflectir onde a mentira não tem refugio e a mera estulticia não tem lugar.
Na mesa de cabeceira o livro da exposição para folhear e estudar a obra de um mestre.
Album de Familia
“A fotografia de hoje é o legado do amanhã e o fotografo um interlocutor da natureza humana, um mensageiro geracional. A fotografia de ontem não acaba no passado, porque a sua história continua infinitamente…..”
“…este livro não encerra o meu trabalho, pois necessito demorar mais por Mora. Demorar porque o tempo escolhe o que perdura. Porque devemos escolher com o tempo, explicando-lhe também o que nos importa, o que nos identifica com dignidade e orgulho..”                                      Nelson D’aires
E é com dignidade e orgulho que agradeço o muito que aprendi
Maria M