Escrita Criativa – A Personagem

Cada apresentação de trabalho é seguida de análise e comentários. Descubro que há tanta gente a escrever bem, porque se lê mais e talvez, talvez porque a palavra escrita é um refugio inexpugnável, onde as palavras se unem com  a argamassa dos sentimentos.

Houve quem desistisse, alvitraram-se justificações.

-Aqui há muita exposição do intimo, há quem não goste,

Leio o meu texto, silêncio. Muito bem dizem. Já se percebeu que a Amélia tem uma escrita forte, intima.

Alguém diz que uso termos caros, outros rebatem concluindo que leio muito, mas é leitura a qual ninguém ficou indiferente.

-Gostaste de escrever?, perguntou a orientadora

-Muito, porque adoro o jogo das palavras.

-Bem quando escreveres um livro avisa, diz a turma.

Livros, outra vez. Recordo-me o quanto ultimamente me tem falado nesse tema. Sim, um dia, infantil.

-Infantil não, mais. Sinceramente acho que deve publicar um livro.

-NÃO

Para a próxima aula vão ter de descrever uma personagem com base na imagem distribuida a cada um, imaginação a solta.

“Humilhação

A minha imagem até há pouco bela desfaz-se agora num caleidoscópio de estilhaços reflectidos, arde-me nos olhos, não quero mastigar mais a minha desgraça, quiçá exista esperança de me salvar desta miséria de existir pouco, esperança neste momento desbotada, bem sei, mas aprendi que quando uma parte de nós desfalece outra renasce com manhas matreiras e renovadas para alcançar a felicidade.

O cansaço dá-nos um velhice subita, e este meu rosto dilacerado parece que atinge já a agonia dos ultimos anos, embora aos olhos do mundo seja novo, 30 anos e já com tantas cicatrizes no carácter. Pudesse eu neste momento fazer esconjuro contra a lembrança, mas a vida move-se a mercê de frémitos imprevisíveis e grotescos, pudesse eu retornar a ignorância ao meu coração, mas a angustia brava que me atinge é a maior das resistências contra o olvido, talvez viva sem glória, mas não me resignarei ao destino que me querem dar.

Manuel foi o meu nome de baptismo, com o passar do tempo apercebi-me da minha diferença, atrai-me o feminino, não como o masculino se sente atraído por ele, mas querendo ser ele. Com olhos cobiçosos percorria o armário de minha mãe, as suas roupas assombrosas, na cómoda o caos dos enfeites e das pinturas deliciava-me, despia-me dos meus escrúpulos, ou dos escrúpulos da sociedade e vestia-os sequioso e avido dessa transfiguração. Cedo adoptei a identificação de Leonor, mas como só o imutável tem o perigo de ser eterno, não consegui esconder por muito esta minha tendência e quando os meus pais descobriram foi a hecatombe no meu lar. minha mãe maldisse os músculos que se contraíram para me expelir, fechou-se na sua dor, e cada dia afastava-se mais da mulher jovial de outros tempos, até que, por fim, o coração despedaçado fez-lhe a vontade e parou.

Fui obrigada a refugiar-me neste quarto de paredes duras apenas com uma cama e para sobreviver passei a ser Manuel de verticalidade irrepreensível nos paraísos de trabalho que a nossa economia criou, como designer publicitário e agradeço aos céus poder expandir desta forma toda a sensibilidade que habita dentro de mim. Longe deles sou Leonor, dizem que de uma beleza helénica, mas não são apenas os  nossos olhos que fazem o belo?

Talvez e talvez por isso ao vê-lo senti um nó no peito, que só a outra metade que abandonamos a nascença nos faz sentir.

Aquele olhar enigmático intenso quase personagem de romance de Salgari  prendeu o meu coração. Nunca mais me largou, trocamos palavras que jamais se repetirão e no silêncio da minha intimidade chorava lágrimas de sangue porque sabia não poder continuar, qual seria a reacção quando percebesse que afinal a Leonor era Manuel.

Vivi o tormento da dúvida, mas o seu olhar dava-me um irresistível gosto de viver, sabia,no entanto, que a minha felicidade cabia no vazio de uma mão fechada.

Nos seus olhos odio, desonra, foi tudo o que percebi quando tocou no meu sexo, agrediu-me, blasfemou, não vi nele qualquer vislumbre de humanidade, parecia um animal enganado, fez-me chafurdar na maior das tristezas carpindo lutos infinitos, lambendo a minha humilhação.

 Abate-se um silêncio atroz, felino e questiono-me: Será que um dia terei força suficiente para deixar de  ser Manuel e Leonor e abraçar para sempre o amor que me arde, a paixão por Leonor?    ”

                                                                                                  Amélia Monteiro

Quando estava a fechar a porta, ao sair, a orientadora corre na minha direcção e diz

-Não te esqueças, o livro tem de ter um titulo.

-O livro ???!!! NÃO

Maria M