Escrita Criativa – A paixão pela palavra

-Um dia irão ter saudades deste período, não tenham pressa em dizer-lhe adeus, quando entrarem no mercado de trabalho as obrigações irão submergi-los a ponto de suspirarem por estes momentos- E com estas frases um colega meu rematou assim as nossas expectativas de futuro. Sábias e proféticas palavras.

Regozijo portanto ao voltar aos tampos das salas de aula, e que carinhosas lembranças me despertam.

Para o fim de semana, TPC claro, – Dois dias de interregno dá para muita imaginação- Diz a orientadora.

 É lido uma parte de “Em busca do tempo perdido”

“Mas no preciso momento em que bebo um gole de chá e as migalhas de bolo me tocaram no céu da boca, estremeci, atento ao que de extraordinário estava a acontecer em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, um prazer isolado, sem a noção da sua causa. Tornara-me imediatamente indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa; ou, antes, tal essência não estava em mim, era eu mesmo. Deixara de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo aquela poderosa alegria? Senti-a ligada ao gosto do chá e do bolo, mas ultrapassava-o infinitamente, não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde agarrá-la?”

                                                                                                            Proust

“Arrancar recordações, porque é disso que se trata sempre que entro no recinto dos pensadores, onde a cor e a fragrância tem linguagens próprias, únicas, não é perder tempo é fazer do tempo arte.

Livros antigos, lombadas carcomidas, rasgadas, quando existem, emanam o aroma mais delicioso e terno que me é dado conhecer, e são tão bonitos. Folheio, deslumbram-me as letras, as palavras acesas mas já gastas no papel, e as ideias numa literatura de solidão desfeita, encantam-me literatura em maiúscula e não um encher de páginas com cariz comercial de usar e deitar fora, literatura que se entranha e nos forma.

As gravuras, monocromáticas, Oh que gravuras fabulosas, ainda fumegam nos formigueiros da minha memória.

-Tens de estudar, só assim podes ser alguém na vida – Diz minha mãe

-Mas já fiz os trabalhos, posso ir brincar?- Pergunto

-Não, ainda é cedo.

Olho para dentro de mim, não vou estudar mais, não quero. Abro o dicionário da Lello,perco-me nas suas gravuras e imagino, analiso cada pormenor, cada risco, rabisco também. Conto a história por detrás da imagem, pouco me importa qual a história verdadeira. A minha volta o relógio avança aos solavancos, ora rápido ora lento, depende do entusiasmo do desenho que observo e da viagem a que me transporta. A preto e branco saiem como fotos das gavetas da lembrança, sinto-as como se fosse hoje tal a força que invocam em mim.

Na rua ouço uma tarantela e sinto um cheiro a pão, pão torrado, esse pão delicioso que acompanhava o meu estudo e as minha gravuras. De repente já não são os outros sou apenas eu a que estou plasmada numa dessas gravuras. A luz tamisada, em fins de tarde calmos e sempre, sempre a preto e branco, será por isso que gosto tanto de Preto e Branco?

Um grito estridente arranca-me para a realidade,

-São uns ladrões, tantos a mendigar pedaços para enganar a fome e só se ouve corrupção e crise, onde é que isto vai parar?

Penso, tantos ódios que se escoam pelos dedos, e não basta as nossas temos de ser invadidos com as desgraças de outras latitudes também, afinal não somos os únicos epicentros de desgraça, mas este é fraco consolo.

Li em tempos: “A alquimia da felicidade depende da correcta mistura de esquecimentos” , como sorri com esta frase, fechei os olhos e ouvi ao longe vozes que se perdiam na atmosfera, de repente vi-me na praia de olhos fechados não pensando em nada apenas na exuberância do momento e no irresistível azul do céu, seria já esta a alquimia da felicidade?

E assim os pensamentos e recordações vão crescendo em espiral, sem enfeites de oralidade, numa narrativa despreocupada de rigores cronológicos;

E duvida Stephen Howkings de viagens no tempo.”

                                                                                                                    Amélia Monteiro

´TPC-Invocação de memórias sensoriais.

Como mote para o trabalho de casa, deambulação sensorial.

Fomos para a rua à descoberta dos nossos sentidos, um levado pela mão de si mesmo, O que vemos? O que ouvimos? O que cheiramos? O que tocamos? O que sentimos?

Transcrever a nossa impressão dessa viagem para o papel não é tarefa fácil, mas como tudo o mais difícil é começar. As palavras iniciam a sua dança ao som das lembranças que mais nos impressionaram. Terá sido o chilrear dos pássaros, os gritos das crianças, o estretor de um motor que não arranca, o cheiro dos jantares que começam a ser cozinhados, as pedras da calçada em cuja irregularidade tropeçamos, ou será a mistura de tudo isto, o sentir neste pequenos nadas a sublime alegria de estar vivo?

No deslizar da pena cada um desvenda o brilho da missanga que é no colar da humanidade

Maria M