Entrevista a Rita Caré

É fim de tarde bem no centro da capital, Lisboa, as nuvens ameaçam pingos de água que se podem transformar em bátegas mais fortes pelo menos assim o vaticina a meteorologia.

Numa  das ruas que cruzam o emaranhado de casario plantado nas faldas do castelo um pequeno bar-restaurante, o Velha Gaiteira, fervilha de actividade artística, no entanto quase em contraponto o silêncio é calmo e a palavra intimidade ganha aqui uma nova dimensão.

A luz filtrada por janelas amplas e pela humidade que paira no ar é em si um poema à generosidade do nosso clima; nas paredes uma profusão de desenhos criteriosamente seleccionados por Rita Caré, acervo que merece um olhar mais atento, cada obra uma história cada obra uma memória. O ambiente é deliciosamente acolhedor propício portanto ao desfolhar das palavras.

Não há margem para conversas antes do tempo, pois a entrevistada orienta um Workshop destinado a quem se quer deliciar no mundo dos “rabiscos” e da cor. E é tal o entusiasmo de quem quer aprender que a pintura se estende bem para lá dos minutos combinados.

Feitas as despedidas de quem quer ou precisa sair, sim porque os restantes permanecem numa tentativa de manter o conforto de uma tarde bem passada, Rita senta-se à minha frente pede uma bebida e iniciamos o diálogo, fácil para quem está habituada a comunicação. Das recordações que para muitos seriam de esquecimento a Rita conserva-as na memória doce do tempo. Começamos então um olhar retrospectivo sobre o porquê de caminhos e decisões que se tomam ao longo da vida.

Bióloga de formação com várias pós-graduações, publicações, intervenções em conferências, e  neste momento com dedicação quase extrema a sua tese de mestrado, a minha entrevistada tem um curriculum de respeito. Mas o nosso discurso voa para outras paragens, para aquelas que fazem brilhar os olhos de Rita, e em que as ideias se revestem com uma linguagem de cor e fragrância inesquecíveis.

Desde o primeiro momento que se sente como pedra de toque  o rigor cronológico dos acontecimentos como uma mais valia para a percepção de decisões e orientações tomadas muitas  vezes sem conscientemente percebermos o porquê

Escriba: Sei que fotografas, é por gosto?

Rita: Em 1998 fotografava a Preto e Branco, contrates fortes e com pouco degrade de cinzento. Hoje pouco fotografo: apenas para memória com um telemóvel. Talvez um dia me aventure com uma máquina profissional. Neste momento não.

Em 1998 aceitei , por curiosidade, o desafio lançado por Pedro Salgado (biólogo e ilustrador cientifico) de que para fazer um dos seus cursos de ilustração científica não é necessário saber desenhar, e assim iniciei a minha formação em ilustração científica.

O Pedro falava de técnicas como o desenho como meditação, o que me marcou muito. Exercitei o desenho cego, o desenho com a mão esquerda o desenho invertido entre outras técnicas. Mencionou também o diário gráfico embora já o conhecesse através da minha formação académica. Curioso foi que nesse ano de 1998 comprei uma caixa de aguarelas, mas nessa altura usava apenas grafite, a tinta-da-china e stippling (pontilhismo), tanto que não o suporto mais. Em 2005 em Aveiro, e com Fernando Correia e Nuno Farinha, discípulos de Pedro Salgado, trabalhei as cores através da utilização de lápis. Em 2007,  talvez numa fuga à representação detalhada e minuciosa da realidade optei por aguarela em abstracto.  Durante três e meio fiz com Alexandre Caetano uma descoberta conjunta deste maravilhoso pigmento. A cor da aguarela retirou-me do preto e branco numa procura de equilíbrio e fuga ao cinzento . Mas em 2010 cansei-me do abstracto

Escriba: Quando conheceste os Urban Sketchers?

Rita: Em 2008 através do blogue de Eduardo Salavisa, que não conheço pessoalmente. Aconteceu entretanto algo curioso, um dia num congresso eu e um amigo e colega de laboratório, o José Ricardo Salvado, percebemos que ambos tínhamos diários gráficos. A partir daí começámos a sair para desenhar em cafés e jardins, eu dedicava-me ao desenho de observação e ele ao desenho da sua imaginação. Chegámos mesmo a ir a alguns encontros dos Urban Sketchers. Em 2012 por motivos de pós-graduação não me foi possível ir a esses encontros.

Sabes por natureza sou tímida e introvertida. Talvez por isso não esqueça o dia 3 de Janeiro de 2013 em que decidi comprar uma viagem a Roma e ir sozinha para desenhar. A viagem era em Março e por coincidência apareceu um desafio na internet para desenhar todos os dias. Todos os meus colegas passaram a saber do desenho e do objectivo dessa viagem, pois até na pausa do café desenhava.

Fui, desenhei, pouco, porque choveu muito. Nunca os publiquei por não me satisfazerem mas serviram como treino.

Escriba:  Nada acontece por acaso

Rita: É verdade.. No final de 2012 comecei a ir a quase todos os encontros e actividades dos Urban Sketchers. Os de Elvas e Castelo Branco marcaram-me pela proximidade e laços entre pessoas que comungam dos mesmos interesses, e por uma convivência que nos une e se prolonga noite adentro. No de Elvas lembro-me da frase de Mónica Cid, “nós se for preciso temos de mudar de rumo”. Nunca mais esqueci, ela por certo já nem se lembra.

2013 foi um ano grande, viajei para Roma, Bruxelas, Budapeste, Berlim e Heidelberg.. Umas viagens foram profissionais e outras foram em férias, mas levei cadernos e a caixa de aguarelas comigo para desenhar sempre que podia. Só em Heidelberg fiz mais de 20 desenhos.

Escriba: Quantos cadernos tens?

Rita: Imensos e vários ainda por acabar. Actualmente tenho um com textura de madeira, para árvores, outro com folhas pretas para caneta branca, uma agenda para desenhar com caneta de aparo, esse anda sempre comigo, e um caderno Laloran, para os registos mais delicados, mais dedicados e perfeitos, em suma aqueles a que dedico mais atenção.

Tenho uma sede de vida e de voluntariado, sabes. A palavra que me fascina é a Partilha.

Escriba: A sabedoria não explicada transforma-se em inútil solidão, percebo.

Rita: É como o Jaques Cousteau, David Attenborough, ou Carl Sagan, que tiveram influência no meu caminho profissional. O prazer da divulgação científica, o terem como projecto massificar o conhecimento. Atrai-me esta Partilha e isso é uma das grandes riquezas também dos Urban sketchers

A Casa do Vapor foi um projecto sócio-cultural em que os Urban Sketchers foram convidados para desenhar as estruturas do projecto construidas na praia da Cova do Vapor (Trafaria). Este projecto envolveu a população local bem como arquitectos, artistas, sociólogos entre outros. Foi muito importante para mim. Dei comigo a desenhar com miúdos à minha volta que me incentivavam. Esta é a função mágica que o desenho tem para mim, é de facto um veículo de partilha supremo. Desenhava a perspectiva entre as casas e lembrava-me do Lapin, sabes o Urban sketcher do blog Les calepin de Lapin. Cheguei a orientar formações para miúdos e graúdos lá na praia.

Escriba: E a cor depois da tua fase de fortes contrastes a P&B, qual os meios que utilizas?

Rita: A aguarela encanta-me, bem como os lápis de cor aguareláveis, mas o óleo e acrílico não.

O desenho é uma evasão, uma terapia, mas apenas o consigo desenvolver em envolvências positivas percebes? Num centro de saúde o ambiente é pesado e se desenho olho, por exemplo, para o meu sapato e abstraio-me do que me rodeia.

Rita olha para o seu sapato e eu pego na máquina, a luz do dia desvanece-se e a fraca luminosidade dificulta a captação da imagem.

Rita: Sabes na fotografia comecei pela paisagem e depois avancei para os detalhes, é o eterno processo de simplificação. A fotografia baila no meu subconsciente mas pretendo-a narrativa num processo que envolva sempre a partilha.

Escriba: Já percebi que mais do que a palavra a sabedoria que envolve a “Partilha” é importante para ti.

Rita: Partilha sem qualquer enfeite de vocabulário é tudo para mim. Também não gosto de racionalizar o desenho. Parto de um ponto e construo a partir daí. Seguindo a recomendação de Mário Linhares (professor de desenho e coordenador dos Urban Sketchers Portugal) gosto de usar como referência uma linha vertical.

Escriba: Surge uma dúvida, porque é que uma pessoa com os teus conhecimentos frequenta as aulas do Mário Linhares?

Rita: Queria desenhar em grande formato  A2 e em cavalete, sair da minha zona de conforto e também aprender novas abordagens de registo.

Escriba: Achas que a arte não tem de ser explicada ?

Rita: A arte deve estar acessível a todos, quer por via explicativa quer por visitas guiadas quer por qualquer outro meio. A arte deve estar disponível para quem a procura.

Escriba : Qual o público-alvo dos teus Workshops, crianças?

Rita: Os meus workshops são para todos os jovens e adultos que acham que não conseguem desenhar.

Proponho os exercícios, dou algumas orientações e cada um desenvolve-os da forma que lhes é mais aprazível que sente que faz mais sentido. O desenho deve ser no contexto de passatempo um prazer e não uma obrigação.

Escriba: Leituras.

Rita: Adoro ler mas o meu tempo é escasso. Mesmo assim neste momento debaixo do braço anda “O desejo de ser Inútil” de Hugo Pratt.

A entrevista prolonga-se muito para além do horário esperado, Telefones tocam freneticamente a lembrar que o relógio cavalga, verdade ainda maior numa noite de reajuste horário.

E por mais efabulante que seja a poesia da vida temos de nos remeter aos afazeres comuns.

Escriba: Rita em jeito de despedida quais as pessoas que mais te marcaram.

Rita: No desenho Pedro Salgado, por ensinar qualquer pessoa que queira aprender a desenhar de forma fantástica e o Mário Linhares porque verbaliza e vivifica na perfeição a Partilha pelo desenho

Escriba: O Mário é de facto uma pessoa que marca quem quer que o conheça.

Bem haja,

Sinto no meu íntimo que fiquei uma pessoa mais rica.

 Rita CaréRita Caré Desenho Rita CaréDesenho Rita CaréDesenho Rita Caré

Para muitos o tempo passa com uma lentidão exasperante, para outros com equilibrada parcimónia e para os restantes voa em espirais vertiginosas como aconteceu nesta entrevista, percebi que todos somos idênticos na vida e o que nos distingue é a perspectiva com que a encaramos.

Dei por mim no regresso a casa a repetir incessantemente a palavra partilha, partilha e isso levou-me a pensamentos mais altos, mas isso é outra história, …. a seu tempo.

E se uma fotografia vale por mil palavras, quantas não valerá uma estupenda ilustração?.. (National Geographic, correio de leitores)

 Maria M