Actividades na Tapada – Aguarela

Aguardava-se um dia soalheiro, primaveril mas o segundo domingo de Abril despertou cinzento embora com temperatura agradável. Na mochila pincéis, pigmentos e papel, elementos essenciais para a sessão de trabalho que reuniu um grupo de artistas numa proposta comum, pintar em aguarela.

Talvez embalada pela musica das palavras, a memoria de ontem aviva-se e transfigura-se na realidade de hoje mais forte e mais presente com o doce cerrar dos olhos.

Em frente a casa de campo da família real, abrem-se as janelas, preparam-se as mesas de trabalho e cada um com um bloco de notas na mão parte com o objectivo de fazer o reconhecimento da área circundante.

Inicia-se uma visita guiada aos gamos, veados e javalis, as estrelas da tapada e delicia dos seres humanos que por ali deambulam. No caminho de terra batida destaca-se um vulto, sem brama, depois outro, momentos depois avistam-se famílias inteiras, pouco incomodadas com a nossa presença. Ninguém resiste ao registo da imagem talvez para um dia recordar.

De regresso a sala o silencio é entre-cortado pelos exercícios orientados por Teo e pelo murmulhar da agua que cai em cascatas num ribeiro em frente a porta, criando ambiente de retiro propicio a concentração.

A Aguarela, essa é um desafio e simultaneamente uma paixão, Versátil, meticulosa sem ser exaustiva, permite formas de expressão pouco ortodoxas longe dos registos classicamente fotográficos. Para o alcançar muitas são as técnicas utilizadas. Parafina para criar texturas que não acreditaríamos possíveis, é sempre um espanto mas o uso de sal e álcool em base molhada ultrapassa qualquer encanto, também se pode usar lápis de cera para conservar os brancos, ou mascara se assim o desejarmos. Mas há mais, lixa de agua para abrir claros aqui e ali, e até mesmo a espátula ou lixivia. Aguarela espalha-se com agua mas também com café, vinho, lama e … bem  em qualquer meio aquoso que a nossa imaginação possa alcançar.

Mas é caprichosa, deve ser ser feita alla prima com gestos largos e o mínimo de pinceladas. Normalmente a cor é colocada em superfície molhada e os detalhes por cima,  quando a tela (algodão ou celulose) fica húmida ou mesmo seca. A cor acresce sempre camada a camada. O resultado esse é etéreo e faz parte integrante do meu projecto

Tamanha actividade abre o apetite e no momento de pausa avistam-se javalis. Impossível resistir, de maquina em punho corro para eles em atitude persecutória.

– Cuidado – grita o tratador – São animais selvagens. Gosta mesmo de fotografia, não é ?

– Fascina-me, especialmente a de retrato e animais.- Respondo.

– Assim sendo vou levá-la a um local especial, aceita?

Não me fiz rogada e em menos de um piscar de olhos rumei para outras paragens, não me arrependi. De regresso a aula deparo-me com a pergunta.

– Quer vir fotografar a Tapada para ilustrar o meu site?

Os meus olhos brilham de alegria.

Na sala a rapidez impunha-se, afinal eu cheguei atrasada.

E a árvore que cada um seleccionou no fim estava esboçada, pintura incompleta, mas o tempo urgia havia que arrumar os papeis, as tintas  e fazer o saldo, aprendemos?

tapada mafra Tapada Mafra

 

Claro que sim, aprendemos que o valor do calor humano ultrapassa qualquer pincel.

Os pormenores esses ficaram para terminar em casa, mas não faz mal.

Ouso-me perguntar, que mais poderia esperar?

Maria M