A propósito da exposição “como as cerejas”

O alvoroço é enorme, ouvem-se gritos e os risos saltam alegres no ar, sente-se gente mas gente pequena. Alguns debruçam-se sobre as malas abertas, com pernas altas e finas, para lhes espiolhar o conteúdo, a atenção essa depende da excitação que os chama para a brincadeira, e nas pausas da correria despreocupada observam atentamente com olhos ávidos e gulosos os desenhos, sabe-se lá com que imaginário infantil.

Estarão por ali, talvez, os valores de uma geração, cozinham-se os elementos que conferem continuidade a uma estética que se regenera e reinventa em cada certame. Longe está a ilustração idílica e de composição equilibrada que identifica os livros da Anita, nos dias de hoje a imaginação liberta-se das amarras de regras pré-concebidas que delineam  gostos de massas, resgata-se das crenças que a historia de classes instituiu e abre-se num puzzle de soluções e métodos que rasgam horizontes, tantos quantos os trabalhos expostos, embarcando em registos por vezes pouco convencionais.

Aparecem assim como um comboio de carruagens açucaradas e assentos que fundem dentro de si mundos de fantasia, as colagens, os desenhos, as cores, as técnicas mistas, as …., bem melhor ver do que descrever.

Pretende-se com estas cerejas uma mostra, pequena,  mas idêntica a que se pratica em Bolonha, a grande festa do livro infantil, delicia para os olhos e alivio de carteiras, segundo ouvi comentar, mas a ver pela mostra e pelo impacto causado não é difícil de acreditar. Aparecem nomes que reconheço do ilustrarte.

De mãos dadas nasce uma certa utopia literária, uma realidade de portas ao avesso, cabelos de mar, perfis algo egípcios, riscos leves aqui, cristalinos acolá, um olho que pisca e nos chama, vem por aqui.

 Como as Cerejas

 

E na minha atenção cuidada dos trabalhos apresentados algo me soa a familiar , uma montanha, uma menina e o mesmo jeito de improviso que nos ajuda a agarrar a memória.

Leio o nome da autora, Yara Kono. Ah a Yara que me abriu os olhos para uma nova forma de ilustrar.

Maria M