A procura de Pessoa, o poeta

Sentada no Largo de São Carlos, oiço um sino, a minha frente uma estátua com cabeça de livro e dela sai o poema
 

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

 
De corpo entorpecido, num inicio da tarde que se prevê de forte canícula a mente viaja pela mão de Pessoa, o pensador, a imaginação é tão forte que já não consigo distinguir o que chamamos real. 
Assento pois arraiais no Príncipe Real, em tempos lixeira do Bairro Alto, nem Pombal a considerou na reorganização urbanística da cidade após terramoto, Sento-me em frente a casa de um dos poucos amigos de Fernando, Henrique Rosa, irmão do padrasto, agora transformada em algo comercial e com um grande letreiro, Jasmim Noir.
Na esquina é grande a azafama que desvendará um edifício de aspecto neo-arábico,  tal como é a praça de touros, estilo que não deixou Pessoa indiferente, na verdade escreveu 188 versos em persa reproduzindo em forma e métrica os poetas do sec XII.
Mas não é a alma árabe o fundo da alma portuguesa? Até a própria saudade tem nela a sua veia, a sua raiz 
A brisa suave e os vários retiros são convidativos a leitura neste jardim de percursos sinuosos, plantas exóticas e de cariz cosmopolita. Soube que em tempos havia prateleiras com livros, debaixo do enorme cedro, para todos os que quisessem transpor a porta que os levaria a outros universos. E Pessoa que se intitulava de Supra Camões, muito deambulou por aqui.
Vou ao encontro do poeta passo os quiosques de origem turco-otomana, dirijo-me a Rua de São Marçal onde viveu com a mãe o padrasto e a avó, doente psiquiátrica, antes da sua partida para a África do Sul. Mesmo em frente a Praça das Flores onde seguramente brincou, local calmo e de paragem obrigatória. 
Neste meu périplo não podia esquecer a academia de ciências de Lisboa , um convento Jesuita onde Fernando estudou filosofia Grego-Alemã, por pouco tempo, é certo, pois a sua vocação estava longe daquelas cátedras.  Desço ao parlamento, e subo até a Estrela, eléctricos passam a ritmos constantes, não admira portanto que fossem tão importantes na vida deste filosofo. E no seu quarto na casa de Campolide onde viveu os seus últimos 15 anos, em frente ao quadro de Almada penso no quinto império; após o Grego, o Romano o Cristão e o Inglês, um quinto império de cultura e de iluminismo.
 
Escreve o poeta: Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente”
 
Não sei se sabia mas tudo neste mundo é vibração, e um pensamento é vibração também. Este pensamento uma vez solto faz parte do espólio a que todos temos acesso, a arte da vida é saber manter firmeza em emoções de bem estar para atrairmos a nós situações que nos são apraziveis.   
 
As badaladas soam fortes, afinal estou no largo do sino da minha aldeia.
Fernando Pessoa Fernando Pessia Fernando Pessoa
 
Apercebo-me que a cultura é tão só o agente transformador de uma sociedade, mas isso eu já sabia.
Maria M